Acorda 6. Sai 7. Pega 1 hora de trânsito. Bate ponto às 8. Trabalha. Almoça às 12 e volta às 13. Na verdade, 13:12h. Trabalha. Fecha o ponto às 17. Opa, 17 não! Tem que ter 48 a mais, senão não fecha as 44. Mais 1 hora no retorno. Chega em casa às 19. Trata dos 10 afazeres domésticos. Dorme às 23. E este ciclo numérico se repete dia após dia, semana após semana, mês após mês, ano após ano.
Na prática, considerando com muita bondade ~só~ uma hora de trânsito, podemos afirmar que estamos em função do trabalho das 7:00h às 19:00h. Doze horas, em um dia que tem 24. Doze horas nas quais o mundo está ativo - porque geralmente nas outras doze o mundo ao nosso redor dorme.
Doze horas que poderiam ser melhor distribuídas e aproveitadas, não necessariamente com lazer, mas com demandas cotidianas que todos nós temos, mas não temos condições de atender com facilidade - supermercado, médico, farmácia, banco, filhos, fazer a unha, academia, e infinitos outros itens que certamente estão na sua lista de pendências pessoais.
Mas enquanto estas doze valiosas horas passam, estamos debruçados sobre computadores estáticos em salas sem janelas, respirando um ar artificial. Não sabemos se do lado de fora chove ou se faz sol, se é dia ou já anoiteceu. Às vezes, a lista de afazeres já está toda marcada com "ok's", mas seguimos firmes olhando pro computador porque ainda faltam duas horas para o expediente encerrar. Acompanhamos a rotina da nossa casa e dos nossos filhos à distância e terceirizamos pequenos prazeres e responsabilidades, até mesmo os importantes - como por exemplo, levar as crianças na escola. Deixamos as unhas, a farmácia e o supermercado para o fim de semana e quando chegamos em casa no sábado à noitinha depois disso tudo, estamos exaustos. O corpo quer repouso e a mente quer sossego. E aí vamos recusando convites para sair, para estar com os amigos, para ver os familiares.
De repente a gente precisa se envolver em uma atividade que não pode acontecer no fim de semana: Ir ao médico, por exemplo. Precisamos pedir permissão para cuidar da nossa saúde e, ainda por cima, apresentar um atestado de comparecimento para provar que naquelas horas úteis, não estávamos fazendo nada de inútil. Nem vou falar de ir ao banco, que não oferece atestado - este, a gente aperta no horário do almoço e depois "come qualquer coisinha pela rua" para não se atrasar. Nosso tempo, há muito, não mais nos pertence.
Tempo é dinheiro ou tempo é vida?
Existe um filme (maravilhoso, por sinal), com Justin Timberlake (maravilhoso, por sinal), chamado "O Preço do Amanhã". Resumindo bastante, trata-se de uma sociedade futurista onde o tempo é a moeda corrente para aquisição de bens e serviços, e cada cidadão tem sua cota de tempo. Quem tem mais tempo, é rico. Quem tem menos tempo, é pobre. O filme é sensacional, mas não pelo desenrolar do enredo - onde Justin, com tempo escasso, namora a mocinha com tempo de sobra. A obra é incrível porque nos faz refletir sobre o valor real de uma moeda simbólica e que todos nós temos. Justin não andava, ele corria - afinal, andar é coisa de quem tem tempo sobrando. A namorada rica, por sua vez, desfilava com a classe e a tranquilidade de quem tem tempo pra dar e vender. Ge-ni-al!
As perguntas que ficam são: Por quê, para quê e para quem estamos dedicando as nossas "horas úteis"? Quais são os motivos que nos fazem respirar resiliência a ponto de nos deixar firmes nesta rotina que não é genuinamente nossa? Se estivéssemos no universo do filme, quanto valeriam estas doze horas do nosso dia?
As pessoas mudam o mundo, que já está mudado. Pessoas que nasceram na geração do dinamismo informativo e tecnológico e que aprenderam a conduzir suas vidas neste ritmo estão se desenvolvendo e começando a pensar em mercado de trabalho. Cedo ou tarde, este mercado vai precisar se reinventar. E o que precisa ser revisto é justamente o objetivo e a real necessidade de manter, durante oito horas e quarenta e oito minutos por dia, uma pessoa atrelada a uma relação de trabalho que algumas vezes pode ter suas demandas inteiramente atendidas em um expediente de 4 a 6 horas, por exemplo. Afinal, os próprios e quebrados 48 minutos complementares às oito horas são o indicador mais latente de que, às vezes, carga horária nada mais é do que uma questão de burocracia.
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